quinta-feira, 21 de maio de 2009

Autor: Viriato da Cruz, Angola

"Namoro"


Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

domingo, 10 de maio de 2009

E ele saudoso, chamou-a para junto de si precisamente no aniversário da sua morte.
Silenciosa e indolor como todas deveriam ser.

Adeus avó Adelaide, eles tomam conta de ti e vocês de nós...
saudades tuas

sábado, 28 de março de 2009


All of my life
Where have you been?

sexta-feira, 27 de março de 2009

Um dó li tá cara de amêndoá um segredo colorido, quem está livre, livre estará.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Bolacha

Ela não acreditava nos seus lábios quando ele sussurrava «eu amo-te!». Achava que a paixão o levava a proferir tal loucura. No entanto, ele amava-a como se fosse a única mulher no mundo. E era sim, mas só para ele. Ela era a sua rosa, de um encarnado quase preto, cujos espinhos insistiam em rasgar-lhe a pele. Era como se a vida morresse quando eles se uniam, os fogos mais infernais pareciam gelo imaculado derretendo nos seus corpos suados pela sensualidade do amor. A outra espreitava-os todas as noites, com desdém. Mas não foi ele que os traiu. Foi a vida que lhes roubou os sentidos numa tentativa de lhes abafar a intensidade com que se amavam. Eles não se deixaram enganar por algo tão terreno. No entanto ela continuava a não acreditar nos seus lábios, nos seus olhos, na delicadeza com que lhe tocava e na sinceridade com que lhe dava prazer. Algo no passado dela obrigava a que estivesse sempre insegura como se o jardim onde estava plantada lhe roubasse as raízes uma a uma. Mas ela amava-o, à sua maneira. O tempo passa agora por eles... e os seus lábios sabem tão bem quanto ele, que nunca enganaram aquela rosa...

domingo, 22 de março de 2009

Oda a un gran atún en el mercado

En el mercado verde,
bala
del profundo
océano,
proyectil
natatorio,
te vi,
muerto.

Todo a tu alrededor
eran lechugas,
espuma
de la tierra,
zanahorias,
racimos,
pero
de la verdad
marina,
de lo desconocido,
de la
insondable
sombra,
agua
profunda,
abismo,
sólo tu sobrevivías,
alquitranado, barnizado,
testigo
de la profunda noche.
Sólo tú, bala oscura
del abismo,
certera
destruida
sólo en un punto,
siempre
renaciendo,
anclando en la corriente
sus aladas aletas,
circulando
en la velocidad
en el transcurso
de
la
sombra
marina
como enlutada flecha,
dardo del mar,
intrépida aceituna.

Muerto te vi,
difunto rey
de mi propio océano,
ímpetu
verde, abeto
submarino,
nuez
de los maremotos,
allí,
despojo muerto,
en el mercado
era
sin embargo
tu forma
lo único dirigido
entre
la confusa derrota
de la naturaleza:
entre la verdura frágil
estabas
solo como una nave,
armado
entre legumbres,
con ala y proa negras y aceitadas,
como si aún tú fueras
la embarcación del viento,
la única
y pura
máquina
marina:
intacta navegando
las aguas de la muerte.

Poem Number 170 Summer in a Small Town

When the men leave me,
they leave me in a beautiful place.
It is always late summer.
When I think of them now,
I think of the place.
And being happy alone afterwards.
This time it’s Clinton, New York.
I swim in the public pool
at six when the other people
have gone home.
The sky is grey, the air hot.
I walk back across the mown lawn
loving the smell and the houses
so completely it leaves my heart empty.